domingo, 14 de fevereiro de 2010

Não arriscar é também um risco*


Cada pessoa vê, sente e analisa o futebol e a vida de seu jeito. Todos estão certos e todos estão errados. Se você é mais racional, pragmático e operatório, gosta de regularidade, segurança, certezas e repetições, detesta correr riscos, improvisações e acasos, só se interessa por resultados e ainda acha que as coisas que fez e que deram certo são as únicas maneiras corretas de fazer, não terá dúvidas, como Dunga, de não convocar Ronaldinho. Se você é uma mistura de Sancho Pança com Dom Quixote, gosta de andar nas nuvens e ter um pé na realidade, adora novidades e correr riscos calculados, se interessa tanto pela qualidade do jogo quanto pelo resultado, acha que é possível jogar bonito e ser eficiente, e ainda pensa que há sempre maneiras de fazer diferente e melhor, não terá dúvidas de convocar Ronaldinho. Se você está convicto, como Dunga, de que não há nenhuma chance de darem certo, juntos, Ronaldinho, Kaká e Robinho, além de um centroavante, não chamará o jogador, nem para a reserva. Imagino que você e Dunga pensem que Ronaldinho, no banco, vai perturbar o grupo e o técnico, e que, na primeira partida ruim, haverá muita pressão para escalá-lo. Se você vê em Ronaldinho uma grande esperança e ainda lembrar que, na Copa das Confederações de 2005, talvez o melhor momento do Brasil nos últimos tempos, jogaram juntos Ronaldinho, Robinho e Kaká, além de Adriano, vai ficar ainda mais convicto em convocá-lo. Dunga aposta na segurança. Para ele, perder jogando bem é pior que perder jogando mal. Não combinaria com sua coerência, que ele tanto se orgulha. Por isso, Dunga não entendeu, nem nunca vai entender, porque a seleção de 1982 é tão elogiada.

*trechos da coluna de Tostão, ex-jogador de futebol, campeão mundial em 1970, comentarista e ídolo deste Bloco.

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